A culpa que aparece quando você finalmente começa a se escolher

Existe uma coisa que poucas pessoas contam sobre começar a se escolher:

no início, nem sempre parece libertador.

Às vezes parece egoísmo.

Às vezes parece medo.

Às vezes parece que você está fazendo alguma coisa terrível.

Você finalmente diz não para algo que não quer fazer.

E depois fica pensando nisso durante três dias.

😂

Você estabelece um limite.

A pessoa fica chateada.

E, imediatamente, surge aquela vontade de voltar atrás e dizer:

“Desculpa. Eu exagerei. Pode deixar que eu faço.”

Você toma uma decisão pensando no que é melhor para você e, em vez de sentir alívio, sente culpa.

Uma culpa estranha.

Pesada.

Quase como se você tivesse traído alguém.

Mas talvez você não tenha traído ninguém.

Talvez esteja apenas fazendo algo que não estava acostumada a fazer: não se abandonar.

E, quando você passou muito tempo se colocando em último lugar, escolher a si mesma pode parecer quase errado no começo.

Por que sentimos culpa quando começamos a nos escolher?

Porque nem sempre a culpa aparece apenas quando fazemos algo errado.

Essa é uma coisa importante de entender.

Às vezes, a culpa aparece quando fazemos algo diferente.

Você passou anos dizendo sim.

Então diz não.

Culpa.

Você sempre esteve disponível.

Então decide que hoje precisa descansar.

Culpa.

Você sempre tentou resolver os problemas de todo mundo.

Então percebe que determinado problema não é seu.

Culpa.

Você sempre fez o possível para evitar que alguém ficasse chateado.

Então toma uma decisão que sabe que pode decepcionar essa pessoa.

Culpa.

Mas sentir culpa não significa, automaticamente, que você fez algo errado.

Às vezes, significa apenas que você saiu de um padrão que parecia normal.

Você pode ter aprendido a se sentir responsável pelo bem-estar de todo mundo

Essa é uma armadilha perigosa.

Talvez, sem perceber, você tenha aprendido que precisa manter todo mundo bem.

Se alguém está triste, você precisa resolver.

Se alguém está irritado, você precisa acalmar.

Se alguém está decepcionado, você precisa mudar de ideia.

Se alguém se sente abandonado, você precisa voltar.

Se alguém está passando por um problema, você precisa carregar uma parte dele.

E, quando você não consegue fazer isso, vem aquela sensação:

“Eu deveria ter feito mais.”

Mas existe uma diferença entre se importar com alguém e ser responsável por tudo o que essa pessoa sente.

Você pode amar profundamente alguém e não conseguir resolver a vida dela.

Pode estabelecer um limite e a pessoa ficar triste.

Pode terminar um relacionamento e o outro sofrer.

Pode tomar uma decisão necessária e alguém não gostar.

A reação do outro pertence ao outro.

Você pode ter responsabilidade pelas suas atitudes, mas não tem controle — e nem responsabilidade absoluta — sobre os sentimentos e escolhas de outra pessoa.

A culpa pode ser o preço de sair de um papel antigo

Talvez as pessoas estejam acostumadas com uma determinada versão sua.

A mulher que sempre ajuda.

Que sempre entende.

Que nunca reclama.

Que dá um jeito.

Que aceita.

Que perdoa.

Que se adapta.

Que fica até quando já não quer mais ficar.

Então, um dia, você muda.

E começa a dizer:

“Não posso.”

“Não quero.”

“Isso não funciona para mim.”

“Eu preciso pensar em mim também.”

E algumas pessoas estranham.

Algumas reclamam.

Outras dizem:

“Você está diferente.”

Sim.

Você está.

E talvez essa seja uma das razões pelas quais a culpa aparece.

Porque uma parte sua ainda quer ser aceita pela imagem antiga.

Quer que todos continuem gostando de você, mesmo depois que você começou a mudar.

Só que nem sempre isso será possível.

E precisamos conversar sobre isso com sinceridade:

algumas pessoas gostavam muito da sua antiga versão porque ela era conveniente para elas.

Isso não significa necessariamente que sejam pessoas ruins.

Mas significa que a sua mudança pode exigir uma mudança na dinâmica das relações.

E isso pode ser desconfortável.

Para elas.

E para você.

“Mas e se eu realmente estiver sendo egoísta?”

Essa é uma pergunta saudável.

Porque amor próprio não significa que você nunca erra.

Às vezes, podemos agir de maneira injusta.

Podemos ser insensíveis.

Podemos pensar apenas nas nossas necessidades.

Podemos machucar alguém.

E, nesses casos, precisamos reconhecer.

Pedir desculpas quando for necessário.

Corrigir o que pudermos.

Mas existe uma diferença enorme entre:

“Eu prejudiquei alguém deliberadamente para conseguir o que queria.”

e

“Eu tomei uma decisão pensando em mim, e alguém não gostou dela.”

A segunda situação não transforma você automaticamente em egoísta.

Porque, infelizmente, algumas pessoas podem não gostar dos seus limites simplesmente porque estavam acostumadas a não encontrá-los.

A culpa pode tentar fazer você voltar para o lugar de onde saiu

Essa parte é importante.

Você toma uma decisão.

Depois sente culpa.

E a culpa começa a negociar com você.

“Talvez você tenha exagerado.”

“Não precisava ter dito daquela forma.”

“Será que não era melhor voltar atrás?”

“E se você perder essa pessoa?”

“E se ninguém mais gostar de você?”

Calma.

Nem toda culpa precisa ser obedecida.

Vou repetir porque eu gostaria de ter entendido isso há muito tempo:

Nem toda culpa precisa ser obedecida.

Às vezes, ela está tentando alertar você sobre algo que realmente precisa ser revisto.

Ótimo. Escute.

Mas, outras vezes, ela é apenas uma reação automática a algo novo.

Uma espécie de alarme antigo tocando porque você saiu do comportamento que sempre conheceu.

O alarme toca.

Mas isso não significa que existe um incêndio.

Como saber se é culpa ou consciência?

Eu acho que essa é uma pergunta útil.

Quando você sente culpa, pare um pouco e pergunte:

Eu fiz algo que vai contra os meus valores?

Fui injusta com alguém?

Fui desrespeitosa?

Prejudiquei essa pessoa deliberadamente?

Existe alguma coisa que eu faria diferente?

Se a resposta for sim, talvez exista algo a reparar.

Mas, se você percebe que agiu com respeito, honestidade e responsabilidade…

e a única razão para a culpa existir é porque alguém não gostou da sua decisão…

talvez você não precise voltar atrás.

Talvez precise apenas aprender a suportar o desconforto de não agradar.

E, minha amiga…

isso é um aprendizado. 😂

Porque agradar pode se tornar um vício.

Você agrada.

A pessoa fica feliz.

Você sente alívio.

Pronto.

Seu cérebro aprende:

“Viu? Evitamos um problema.”

E assim você continua repetindo.

Até perceber que, para manter todo mundo confortável, existe uma pessoa que está constantemente desconfortável:

você.

Você não precisa se punir por começar a pensar em si mesma

Talvez você esteja fazendo algo que queria há muito tempo.

Estudando.

Mudando de profissão.

Terminando uma relação.

Começando uma relação.

Viajando.

Saindo mais.

Ficando sozinha.

Mudando de ideia.

Vivendo algo completamente diferente do que imaginou para sua vida.

E alguém pode não entender.

Talvez você mesma ainda esteja tentando entender.

Mas não se castigue por isso.

Você tem o direito de mudar.

De descobrir coisas novas sobre si.

De perceber que aquilo que fazia sentido há cinco anos já não faz mais.

De reconhecer que errou.

De recomeçar.

Você não assinou um contrato se comprometendo a permanecer para sempre a mesma mulher.

Ainda bem.

Porque imagina a tragédia. 😂

Começar a se escolher exige suportar alguns desconfortos

Essa talvez seja a parte que ninguém gosta muito.

Porque seria maravilhoso se você começasse a se escolher e, imediatamente, todas as pessoas da sua vida respondessem:

“Parabéns! Que lindo o seu processo de autoconhecimento. Estamos muito felizes com seus novos limites.”

😂😂😂

Mas a vida real nem sempre funciona assim.

Algumas pessoas vão reclamar.

Outras vão se afastar.

Algumas vão tentar fazer você se sentir culpada.

E outras, talvez, simplesmente não entendam.

O seu desafio será aprender a diferenciar:

“Eu preciso reconsiderar minha atitude.”

de

“Eu só estou desconfortável porque alguém não aprovou a minha escolha.”

São duas coisas completamente diferentes.

Talvez a culpa diminua quando você começar a confiar mais em si mesma

No início, você pode precisar perguntar para todo mundo:

“Você acha que eu fiz certo?”

“Será que fui egoísta?”

“Será que exagerei?”

E ouvir opiniões pode ser bom.

Mas, aos poucos, tente construir também a sua própria confiança.

Aprenda a se perguntar:

“Eu conheço os motivos da minha decisão?”

“Pensei nas consequências?”

“Isso está alinhado com aquilo que considero importante?”

“Consigo sustentar essa escolha, mesmo que alguém não goste?”

Porque maturidade não é nunca ter dúvidas.

É aprender a tomar decisões mesmo entendendo que você não conseguirá controlar todas as consequências.

E, principalmente, entender que nem sempre haverá uma escolha sem culpa, sem perdas ou sem desconforto.

Às vezes, você só precisa escolher qual desconforto não está mais disposta a aceitar.

Essa frase, inclusive, pode mudar muita coisa:

Nem sempre existe uma decisão sem dor. Às vezes, existe apenas a decisão que faz mais sentido para você.

A mulher que você está se tornando talvez precise decepcionar a mulher que você era

Essa é uma reflexão delicada.

Talvez a antiga versão de você acreditasse que precisava manter todo mundo por perto.

Que precisava ser necessária.

Que precisava ser escolhida.

Que precisava agradar.

Que precisava aceitar determinadas coisas para não ficar sozinha.

Mas você está aprendendo algo novo.

Está aprendendo que pode amar sem se abandonar.

Que pode ajudar sem carregar tudo.

Que pode dizer não.

Que pode decepcionar alguém e continuar sendo uma boa pessoa.

Que pode perder a aprovação de algumas pessoas sem perder o próprio valor.

E talvez seja por isso que a culpa aparece.

Porque existe uma parte sua dizendo:

“Volta a ser como era antes. Era mais seguro.”

Talvez fosse mais seguro.

Mas você era mais feliz?

Essa é uma pergunta que vale a pena responder com honestidade.

Então, o que fazer quando a culpa aparecer?

Primeiro: não saia correndo para desfazer tudo.

Respire.

A culpa apareceu.

Tudo bem.

Observe.

Pergunte o que ela está tentando dizer.

Se você percebeu que errou, reconheça.

Se precisa pedir desculpas, peça.

Se precisa reparar alguma coisa, repare.

Mas, se descobrir que não fez nada errado…

não volte a se abandonar apenas para se livrar do desconforto.

Fique.

Permaneça na decisão por mais alguns minutos.

Mais algumas horas.

Mais alguns dias, se precisar.

Deixe seu coração aprender que você pode sobreviver ao fato de alguém não estar completamente satisfeito com você.

Porque pode.

E vai.

Escolher a si mesma não deveria causar culpa para sempre

No começo, talvez cause.

E está tudo bem.

Você está desmontando padrões que, às vezes, levaram uma vida inteira para serem construídos.

Tenha paciência com você.

O objetivo não é se transformar em uma mulher fria.

Indiferente.

Egoísta.

O objetivo é se tornar uma mulher que consegue olhar para as próprias necessidades e dizer:

“Eu vejo você.”

Uma mulher que não precisa se abandonar para ser amada.

Que não precisa dizer sim para merecer ficar.

Que não precisa resolver tudo para ter valor.

Que não precisa carregar a felicidade de todo mundo nas costas.

E que começa a entender, aos poucos, uma coisa muito importante:

Sentir culpa por se escolher não significa que você deveria parar de se escolher.

Talvez signifique apenas que você está aprendendo uma forma nova de viver.

Valentina Amado 🌻

Uma conversa para você levar daqui

Na próxima vez que sentir culpa por se escolher, não pergunte imediatamente:

“O que eu fiz de errado?”

Pergunte primeiro:

“Eu realmente fiz algo errado… ou apenas fiz algo diferente do que sempre fiz?”

Essa resposta pode mudar a maneira como você enxerga a culpa.

E, quem sabe, impedir que você volte para um lugar que já decidiu que não quer mais ocupar.

Porque se escolher pode ser desconfortável no começo.

Mas se abandonar também custa.

E, talvez, tenha chegado o momento de parar de pagar esse preço.

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